11
jul

Sobre causos e coisas

Amaranto - papelzinho 1

Deve haver um motivo maior para isso tudo acontecer, mas se bem que as coisas têm sido substancialmente mais fracas. E, no entanto, se me veio por fraqueza tal tema, que me vá por força. Escrever um texto assim pode parecer fácil, mas não é.  Demanda de dentro tal força, inquietude mesmo que me faça.

Faz tempos não ouço gentilezas. Eu mesma tenho sido mal educada, irrequieta, irresponsável no trato com as pessoas. Se das relações não mais tememos o incerto, de que chão podemos cavar nosso próprio buraco? O fato é que nos falta franqueza para sermos verdadeiramente fracos. Enfim, foi ontem que me ocorreu o causo. Lia um texto de literatura pequena, quase uma revista de salão de jogos, quando de dentro dele cai um papel com letrinhas leves e soltas. Mas que a mim serviu como carapuça. “Sabe aquelas coisas? Fique com elas. Ass: seu velho amor.” Que pena, que crueldade aquele papelzinho me caber nas mãos! Para uma mente tão voluptuosa correndo viagens, um papelzinho daquele era um atrevimento! Pra quem seria aquele dizer? Que coisas seriam aquelas, que estória carregava aquele papel passado de amor? Não tinha deixado cheiro, pistas, nada. Só o papel ali. E eu em branco, pedaço de uma parte solta que precisava de complemento pra que eu ficasse tranqüila na criação daquela mesma estória. Por certo seria um texto dado ao ex-marido, uma mulher que dele não queria mais nada, mas se fosse assim, por que ela o teria dado ali, naquela salinha de espera da terapia? Bom, quem sabe ele a teria levado ali para dentro, e num possível episódio de raiva, a mulher entrou para a sala e o deixou esperando com aquela mensagem nas mãos. Mas por que ele guardaria entre aquelas páginas? Não, talvez aquelas palavras tivessem sido escritas por um homem cansado, que de tão velho, estaria doando coisas que outrora lhe tiveram valor e que no fim da vida já não representavam mais nada. Mas o mesmo motivo ficava de incógnita: Como aquele bilhete teria parado ali? Uma mensagem aparentemente profunda, deixada e encontrada sem dono, não tinha o menor valor a ninguém, pois não recebera seu destino certo. A carta, de caso, havia virado coisa. E naquele exato lugar, o mais propício, para trazê-la ao merecimento de carta novamente: eis que uma sala de espera, da terapia, não poderia ser um lugar melhor para aquilo.

Sai de dentro da sala uma mulher chorando e quase não vejo, aflita pelo que me toca no momento cego. Entro com o papel na mão. Assento de frente para o analista e leio: “Sabe aquelas coisas? Fique com elas. Ass: seu velho amor.” O analista me rodeia, me fascina e após uma pausa súbita, me diz: a quem você diz isso? E eu respondo. Não, calma, posso explicar. Isso não é meu. Definitivamente não reconheço essas letras. Encontrei esse papelzinho solto ali, num livro da sua estante, e me instigou profundamente o porquê alguém diria isso dessa forma e porque precisaria desfazer-se de algo que num passado lhe pertenceu e que agora…não mais lhe importa e que apesar de tudo, ainda que velho, ainda ama. O fato é que me fascinou essa estória perdida ali, de alguém que parece estar sozinho, mas que ainda assim parece amar, mas que apesar de tudo não precisa mais de coisas. Enfim, não sei bem o que estou dizendo, mas acho que entendi um pouco das minhas questões. É que tento demais entender o que não posso. Tento demais preencher o meu vazio. Tento profundamente ser alguém que não posso ser. E sei que o vazio existe apesar de todas as brechas as quais acreditamos poder preencher com estória. E então fico exausta de tentar buscar coisas onde nem mais estão como coisas, pois já deixaram de ser objetos para a minha mente e passaram a ser um estado. Estado mesmo de ser. E então, o analista me vira e diz: “quer deitar-se ao divã?” E nesse momento, perdido, mas de uma lucidez tamanha daquele momento, me decido. E vou deitar-me. E por um segundo ali, os dois sabem do que estão falando. De uma mesma coisa. Que não é coisa. Mas é estado. E o divã se transforma.

Deito no divã. Respiro. O ar, a parede, tudo ali parece outro sentido. Quase como meu primeiro buraco ante a própria morte, de lucidez enquanto o mais fraco pode ser o humano. E a primeira coisa que me digo é: “então, aquelas coisas, que deixei pra trás, não me pertencem mais. Agora sou, ainda que tarde, agora sim, sinto-me capaz de amar.”

Marina Ferraz

Amaranto - papelzinho

Veja também

Comentários