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jul

Terceiro Sinal

Amaranto - janela Ela vivia em um cenário. Desde pequena acumulara coisas pensando na função que cada coisa teria no enredo encenado. Como aquela calça preta de couro – que até rasgou de tanto usar – com um detalhe no bolso. Se a cena pedisse um cavalo, tcharam!, bastava bater em seu próprio dorso e o animal cruzava montanhas e vales a galope! A embalagem de alimento achocolatado infantil, com a carinha da personagem estampada, por exemplo, era perfeita para qualquer roteiro. E a menina salvava a amiga de afogamentos, de ser presa por um bruxo mau ou raptada por um dragão. Ela cresceu e na sua casa tudo tinha função cênica. Amarelo para um dia ensolarado, velas para uma boa noite. Americano cru para cobrir a mesa translúcida, quadro indiano na parede com espelhinhos miúdos, para refletir, para viajar. Luz do sol entrando pela janela entreaberta, abertura rigorosamente calculada para molhar apenas a mesinha de canto e não o tapete logo ao lado. Aquela lamparina antiguinha estava há tanto tempo com ela que parecia sempre ter estado ali. Conseguiu-a com muito custo de um mercador japonês. Tinha gastado todo o seu poder de argumentação e sedução para convencê-lo a entregá-la. Gastou também um bom dinheiro nela, apostara todas as fichas na crença de que ela era perfeita para a abertura do segundo ato. O mercador dissera que era pouco, que era um objeto que não estava à venda, depois confessara que na verdade tinha oferta melhor e ia vendê-la para outra interessada. Amaranto - lamparina Como assim? Minha lamparina em outro cenário? De jeito nenhum! Daí o trunfo de vê-la diariamente ali, repousando em sua casa, em cima da mesinha de canto. Tinha dias em que a lanterninha iluminava realmente a cena. Nestes dias, ela a tirava de cima da mesinha, mostrava para todos, até filmava, fazendo caras e bocas de garota propaganda, selfie no espelho, cantava, dançava. A luz não durava muito, voltava para a mesinha. Um dia entrou em casa e perdeu a deixa. Sempre lançava um olhar comprido na direção da lamparina antes do tradicional “oi, tudo bem por aqui?”. Era uma frase que muitas vezes ficava ecoando sozinha, mas ela nem se importava, era assim mesmo que a história prosseguia. Mas como seguir naquele dia? A lamparina não estava mais lá. Ficou desconcertada, esqueceu a fala, o rumo da cena, tudo o mais. Que mistério acontecera enquanto não esteve ali? Bem que tentou continuar na mesma toada, mas as falas que lhe vinham à mente pareciam não fazer sentido sem aquele olhar que sabia tão bem antes do “oi, tudo bem por aqui?”. Ela nunca tinha passado por isso, a falta lhe doía, corroia-lhe as entranhas e simplesmente não podia parar tudo e xingar o contrarregra. Ela era a atriz, a dona da cena, a roteirista, diretora da peça, enfim, não tinha a quem culpar. Deu um risinho, despistou a lágrima que fugiu do cantinho do olho, saiu dançando de lado, meio sem jeito, pegando antes o guarda-chuva laranja que ficava ao lado da porta. Lembrou Chaplin, Fred Astaire e antes de sair de cena, viu que sua casa tinha as cores de Amelie Poulain. Amaranto - peixe no aquário Esmorecem-se as luzes. Fim do segundo ato. Ninguém sabe o que se passou nas cochias, naquele pequeno intervalo entre o desastre da cena derradeira e o novo abrir das cortinas. O sinal anuncia o terceiro ato. A plateia se agita. E ela ressurge, radiante, luminosa, pronta para o improviso! Flávia Ferraz

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